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10/03/2009

Roda-gigante


Direto do túnel do tempo: texto escrito em outubro de 2002, primeira vez que me arrisquei em prosa.

A roda girava acompanhando nossos movimentos. Eu senti suas mãos em minhas costas e me aconcheguei no seu peito. Era uma roda-anã, daquelas de interior. Nossos alunos deviam estar largando àquela hora. Nós deveríamos ter ido embora. Uma tarde inteira tomando cerveja.

Ao sair da escola ele tinha me convidado para comer caranguejos. Claro que ele sabia que eu gostava de caranguejos. Era um convite certeiro. Cidadezinha pequena. Uma rua principal, estrada movimentada, caminho para o litoral. Duas paradas depois, havia uma praça. Grande, com quadra poli-esportiva, parques e bares ao redor. Obra do prefeito atual. Pão e circo. Perguntamos por caranguejos. Ninguém tinha. Pegamos uma mesa embaixo de uma jaqueira. Bela sombra, cerveja barata e gelada.

Ele trabalhara com restaurantes. Estressante. Travestis que não podiam usar o banheiro feminino, nem o masculino. Armas em cima da mesa enquanto os donos dormiam bêbados. Largou o ramo. Resolveu-se pela física. Ser pesquisador? Isso é trabalho para uma vida inteira. E às vezes nem isso basta. Melhor ser professor.

Comemos bisteca. Eu preferiria caranguejo, mas não era segredo a minha razão de estar ali. E pra quem não tinha almoçado, estava até bom.

Ser professor é duro. As turmas estão difíceis. A sala 3 quer casar a gente. Risos. Temos até às 18h. É, se eles nos vêem...

Eu? Sempre quis ser professora. Mentira, nunca tive essa vontade. Quis ser jornalista, um tempo. Me formei em Turismo. Mas sempre amei literatura. Na hora da inscrição do vestibular, me bateu um estalo. É letras, é isso! Vou ser professora. Foi assim. E aqui estou eu. Bebendo cerveja escondida de meus alunos. Risos.

Mais cerveja. Vamos ficar bêbados. Que horas são? 15h? Ainda? Demora para eles largarem.

A praça começa a encher. 12 de outubro. Crianças por toda parte. Um parque de diversões começou a funcionar do outro lado da praça. De onde estávamos dava pra ver a roda-gigante. Quando sairmos, vamos andar de roda-gigante? Ah, eu adoraria. Faz tanto tempo que não ando. Desde que não sou mais criança. Mas tenho medo. Pois nós vamos andar nela hoje, você vai ver.

Eu via seus olhos. Sua mão segurando o cigarro. A barba por fazer. Ai, a barba por fazer. Lindo. E eu nunca tinha achado um homem bonito vestido daquele jeito. Calça de linho, cinto e sapatos sociais. Camisa de botão, já meio aberta. Lindo. Puta que pariu, enfim um homem interessante na minha vida. Será que ele lia os meus olhos? Melhor ficar quieta. Parar de olhar para ele.

Quinze para às seis. Está quase na hora. Vamos andar de roda-gigante ou não? Claro que vamos. Só a saidera. Foram oito cervejas nesta tarde. Depois a conta. Rachamos.

Saímos da mesa e fomos até o parque. Ainda preparavam a roda. Tinha que trocar as lâmpadas. 10 minutos. Fomos atrás de cervejas em lata.

Não temos. Só long neck. Serve. Pegamos duas. Voltamos a roda. Esperar.

Tudo pronto. Por favor, podemos ser os próximos? Claro. Subimos numa xícara cor-de-rosa. Eu tenho medo. Você tem medo mesmo? Sério! Vem mais pra cá.

Era pequena a roda, mas dava pra ter uma vista legal. Foram duas voltas até ele perguntar: a gente podia ficar... Nenhuma resposta. Só um beijo. Era a roda girando igual nossos lábios um sobre o outro. Eram suas mãos na minha cintura. Tudo girava pra mim.

Acabou nosso tempo. Vem pra cá, vamos ficar atrás da roda, ninguém vai nos ver. Legal. Beijos, beijos... E se nos vissem? Ah, que se dane! E mais beijos. Pausa para um cigarro, dois cigarros. E amanha, como vai ser, hein? Amanhã?!? Vai ser assim: oi professor!, oi professora! Como todos os fins de semana.

Está na hora. Vamos?

Vamos. Eu te levo até a próxima parada. Uma Kombi. Na praça desce. Outra praça. Outra cidade. Ali era adeus. Beijos e tchau. Até amanhã? Até amanhã.

Nenhum aluno nosso nos encontrou. Dia seguinte, as mesmas gracinhas dos alunos da turma 3. Professora, sabia que os opostos se atraem? Física X Literatura? Risos. Ao fundo, a voz dele na sala ao lado me lembrava de onde vinha a marca no meu pescoço.

P.s.:Obrigadapelarodagiganteeuadoreieunaumsoubemoquevocêpensa,mastudobem,
avidaehassimmesmoteadorobeijosbeijosbeijos

09/12/2008

Sem fraternização, por favor

Sujeito corpulento, de bigode farto, entra na sala do meu departamento. Não dava pra sacar a expressão dele por causa dos pêlos amarelados que cobriam a boca. Eis que ele corta pra cá, pra lá, contorna minha divisória, veja só!, e se apóia - feladaputa! - na porra da minha mesa, amassando meu encarte do Flaming Lips de papel laminado. Pra fuder de vez, o tranqueira ainda faz menção pra eu tirar meus fones.

- Paulo, certo? Aqui estáá... vamos lá... pronto. Seu convite para nossa confraternização de fim de ano.
- Hein? Quem é você?

Sério, nunca vi. Mas ele não se agradou muito da pergunta, pelo visto. Cobriu metade dos olhos com as pálpebras enrugadas e falou sem muita entonação positiva:

- Sou o chefe da repartição.
- Aaah.. haha. Tá certo. O senhor tirou a barba, doutor Tavares?
- Desde os 25 anos. E o doutor é Silveira.
- Claro.
- Enfim, esteja lá.

Um a zero pro Silveira. Tomei no cu. Tenho culpa se ele nunca aparece ali?
No dia da festa, eu estava lá, de bermudão e camiseta, curtindo as skólicas, começando a apontar os dedinhos pra Jesus, ouvindo a porra do disco do Benito de Paula que o chefe trouxe - dizem - pa pa pa pa-para animar a festa. Me cheguei no Catita, do almoxarifado, porque eu vi um despacho interessante arrastando as sandálias perto da piscina.

- Catita, e aquele lanchinho ali, quem é?
- Rapaz, é estagiária de RH, Amanda. Mas v...
- Só preciso disso mesmo. Fica aí.
Eu me vi num corredor pro céu, daqueles cheios de luz branca. Já tava vendo a menina tocando harpa com aqueles fios de cabelo lôro. Peguei uma dose do Daniel Andarilho que se eqüilibrava com dificuldade na bandeja de um garçom e me cheguei na moçoila.

- A gatinha bebe leite?
- Só se for integral.
- Então chamegue comigo, venha.

Não danço. Não gosto e nem sei. Mas o álcool é divino. Tanto que até Jesus bebia. A bichinha dançava coladinho, testa com testa. Peguei a danada pela cintura e arrastei pro meu lado. Aí aqueles moranguinhos ficaram colados no meu peito. Daí pra encoxar a menina foi um pulo. O negócio tava esquentando, e o negócio esquentando, e a gente parecendo duas cobras fornicando. E nessa historinha de ficar entornando e dançando, acabei nem percebendo o burburinho que as pessoas ruminavam ao nosso redor. Quando vi, já tinham formado aquele círculo de briga de galo, cheio de olhares atônitos.
Aí eu vi o Silveira - graaande chefe da repartição - olhando pra mim, admirado. Acho que ganhei o respeito dele, até porque ele parecia que tava babando pela Amanda. Tanto que, num intervalozinho pra moça ir ao banheiro, ele se chegou pra perguntar:
- Rapaz, o que é isso? - falou baixo e rouco no meu ouvido.
- O maior pitéuzinho que eu já vi nessa empresa, doutor Silveira. Eita cabrita pra dançar pra porra!
- Isso é um absurdo! - ele se tremeu. Parecia excitado, o velho. Hahaha.
- É que o senhor ainda não agarrou as coxas dela.
- Olhe, meu rapaz! - gritou. Você está bêbado...
- E doido pra fofar, meu querido! Hahaha.
- ... e se atracando com minha filha!
- Eita, porra...

Lembram do círculo? Dissipou-se. Procurei o Catita com os olhos. Ele deu de ombros, fez cara de "tentei te avisar" e se saiu. Pra fuder de vez, já que aquilo ainda era pouco, inventei de fazer piadinha.
- Doutor Silveira, tenha calma. Deixe eu lhe pagar um passaportezinho.
- Quem pagou toda essa merda aqui... FUI EU!
- Tenho alguma chance?
- Tem, sim, meu amigo. Tem, sim. Grandes chances de ir pra puta que o pariu! Semana que vem, passe na minha sala, se souber onde é.
- Pois é... eu não sei mesmo.
- Fora daqui!

E foi aí que recolhi meus picuai pra virar escrevedor de blog de segunda.